A única coisa que sobrou na geladeira é uma garrafa de leite. Engulo com a mesma vontade que sentiria se estivesse num deserto há dois dias sem um gole da água sequer no cantil.
Só que não tenho sede. Tenho fome.
Seria tão fácil resolvê-la, mas não quero enfrentar a madrugada até a loja de conveniência. Não quero.
Para suportar o clamor do meu estômago, alimento-me de nostalgia. E acabo de me dar conta que, 10 anos atrás, em março de 1999, aprendi minhas primeiras lições na faculdade.
Foi o fim da adolescência, e doeu muito. Por isso, nunca me atreveria a pensar que um dia sentiria saudade dessa época. As coisas mudam.
Lembro que, pouco antes de entrar na universidade, comecei a rascunhar na minha mente um romance. Eu acreditava que poderia escrever um livro. Como os adolescentes são tolos…
A obra imaginária nasceu quando cruzei com uma manequim de vitrine de loja semelhante a uma colega de escola por quem eu desejava ardentemente me apaixonar. Uma era a cópia da outra.
Foi aí que decidi: o personagem principal do meu livro amaria a manequim. Como quem não quer nada, ele estaria passeando, olharia para a vitrine, poria os olhos nela e tum… Teria uma paixão à primeira vista, bem como manda o manual dos romances baratos, encharcados de clichês a cada página.
Bem, o resto da história seria óbvio, é óbvio. Ele viveria no shopping de olho da sua amada, que nem lhe daria bola. A família rejeitaria o namorico do nosso Romeu, que haveria de se tornar motivo de risos dos poucos amigos.
O fim do romance virou um drama para mim. Não sabia como terminá-lo. Pensei em várias versões. Em uma delas, o personagem arrombaria a loja de madrugada e roubaria a manequim, mas seria morto por policiais na fuga.
Em outra, um incêndio destruíria a loja. A manequim, é claro, não conseguiria escapar com vida. Sem aguentar tamanho sofrimento, o personagem cortaria os pulsos por amor.
Com o passar dos meses, para o bem da literatura brasileira, esqueci da ideia do livro. O leite que acabo de beber reavivou essa lembrança e resgatou um tempo que jamais desejei recordar.
Mas agora, cá estou eu, com saudade. Sim, saudade de um tempo que a geladeira também estava vazia. Só que, somente agora percebo isso, eu ainda podia me alimentar da fé.
Naquela época, ah, sim senhor, eu tinha fé. Eu acreditava.
Amém!
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